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Gato Pardo

Para quem não conhecia, saiam enquanto é tempo...Para quem já conheceu, puxem duma cadeira...Vem aí a versão 2.0...

Quando perdemos aquilo que nos é mais importante, é quando percebemos o quão errados estivemos uma vida inteira. Porque os pequenos instantes, duram uma eternidade...

Como o vídeo indica, este podia ser um post sobre futebol. Mas não é. É sobre muito mais que isso.

O nome Quinito é desconhecido desta nova geração de aficionados do futebol. Mas se disser que foi treinador do Porto, Guimarães, Espinho e Estrela da Amadora, aí se calhar já tenho a vossa atenção.

Admito que muitas vezes me questionei do paradeiro deste senhor. Sabemos que o futebol é fértil em treinadores mas há sujeitos que nunca se esquecem. Quinito era um deles. Soube agora que Quinito se condenou a ele mesmo a um hiato por opção devido ao sentimento de culpa da morte do filho, que faleceu tragicamente em 2009 num acidente rodoviário no Brasil.

Enquanto observava o vídeo que partilho em cima, admito que as lágrimas me vieram aos olhos. Não apenas pela dor que se sente em cada palavra que ele profere mas porque o ser humano comete exactamente o mesmo erro sistematicamente todos os dias.

Trabalha-se arduamente todos os dias na tentativa que nada falte aos filhos. Passa-se mais tempo a trabalhar do que a vê-los crescer. Perdem-se momentos irrecuperáveis. Os primeiros passos, as primeiras palavras, aplaudir as conquistas e confortá-los nas derrotas. E um dia, sem que nada o faça prever, nada mais resta. Questionamos opções, porquês...

A vida é cruel. O ser humano faz o melhor que pode. Muitas vezes, a custos que ninguém sequer imagina. Há que priorizar. E não há dinheiro suficiente neste mundo que pague o sorriso de um filho, um abraço ou um "amo-te". Não vão pelas minhas palavras. Ouçam apenas as do Quinito.

Porquê, meu Deus. Porquê???

 

Indiana Jones é talvez, umas das personagens mais amadas por algum do pessoal da minha geração.

Sempre gostei dos filmes (embora o quarto já me tenha deixado com um certo amargo de boca), eram bom entretenimento para uma tarde de ócio. Admito que fiquei algo surpreso ao saber que se vai fazer um quinto filme da saga, o que me levou de imediato a inúmeras questões.

- Harrison Ford não tem por esta altura 76 anos?

- O gajo vai andar a perseguir artefactos históricos ou vai ser um deles?

- Como é que o filme se vai chamar? Indiana Jones e a Anca Perdida?

- Porque é que os estúdios teimam em mexer em sagas que estavam boas quietinhas e têm de fazer mais um filme com alto índice de probabilidade de correr mal?

- Será que o Sean Connery volta a aparecer como pai? Afinal de contas, só tem 85 anos e ainda deve estar aí para as curvas também.

Vamos ver no que isto dá. Só espero não ver o Indiana Jones a comer caldo verde por uma via intravenosa enquanto assiste ao programa matinal da Maria Helena e joga à bisca lambida.

Até sempre, gigante...

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Existem pessoas neste mundo que cruzam o nosso caminho de formas estranhas.

O meu caminho cruzou-se com o de Nicolau Breyner através do meu avô. Raros eram os fins de semana em que o meu avô não fazia questão de colocar um vinil no gira discos intitulado "Kiss me la bouche". Rock cómico, chamava-lhe ele.

Resumir o homem que foi Nicolau Breyner a um disco de 1981 é extremamente redutor. Mas foi aí que retive o nome que me esqueceria jamais.

Nicolau Breyner pertence a uma estirpe geracional de actores muito selectiva onde se faz acompanhar de Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho. Monstros culturais de valor inestimável que Portugal não está de todo preparado para perder. Não existem por ora, substitutos à altura.

A Nicolau, todos devemos o facto de existir ficção televisiva em Portugal. Isso e existir uma nova geração de actores. Não haverá um que possa dizer que não se sentiu de alguma forma inspirado por este senhor.

O Alentejo perdeu um dos seus filhos mais amados. O país, um dos seus ícones. O mundo, um diamante que nunca chegou a conhecer devidamente.

Este conceito de multiusos actual é muito à frente...

Na visita de hoje ao supermercado e enquanto cuscava as compras da gaja da frente (sim, é uma espécie de fetiche...Como o marido dela tinha ar de quem podia terminar a minha existência ali mesmo no tapete rolante das compras, entretenho-me a observar a alface, a garrafa de vinho tinto rasca e as 4 bolinhas de mistura...), dou-me conta de uma expressão hoje em dia utilizada em centenas de produtos do nosso dia a dia...

Multiusos...

Eu não só sou do tempo em que os detergentes tinham brindes lá dentro para os putos (mostrando total desinteresse sobre o facto de muitos putos desatarem a comer o detergente à colherada na ânsia de chegarem ao brinde mais depressa) como sou do tempo em que um determinado produto tinha apenas uma função...

O detergente para lavar a roupa à mão, por muito chocante que isto possa ser para vocês, servia unicamente para lavar a roupa...E ainda por cima, à mão...O TV Rural, servia para nos chatear os cornos porque na nossa tenra idade a última coisa que queríamos descobrir era que as nossas amadas batatas fritas eram na verdade um tubérculo (daí que na minha escola havia um grupo de verdadeiros amantes de batatas fritas apelidados de tuberculosos...) que era cultivado na terra...Ou que as garrafas verdes de Sonasol, serviam unicamente para lavar a loiça e não eram de forma alguma, versões de litro de 7Up...

Hoje em dia, não...Parece que a expressão multiusos difundiu-se por toda uma panóplia de produtos o que leva muitos consumidores a questionarem-se sobre a real utilização que devem dar aos mesmos...Vejamos alguns exemplos...

- Luvas multiusos...Bem, da última vez que eu vi, as luvas serviam para um tipo enfiar as ditas nas mãos...Com a evolução da humanidade e o poderio financeiro da população em baixo, suponho que a expressão multiusos se deve ao preço excessivo dos preservativos hoje em dia, o que leva os rapazolas a considerar as luvas uma alternativa mais barata às caixas de 12 unidades de preservas...

- Detergentes multiusos...Servem para lavar a loiça, o chão, o tecto, o cão, a patareca e se um gajo for imaginativo, até deve dar para fazer uma boa sangria. Tirando a parte da espuma, ninguém deve dar pela diferença.

- Cadeiras multiusos. Antigamente, estas apenas tinham uma função (que era um gajo sentar lá a peida). Mas com o avançar dos anos, ganharam toda uma nova panóplia de utilidades como armas de arremesso em processos de divórcio ou uma boa alternativa sexual ao quarto (nunca se sabe quando a fome aperta e se tem o jantar ao lume. Convém ficar por perto da cozinha).

- Maquilhagem multiusos...Imagino que sejam eyeliners com a capacidade de disfarçar riscos no carro. Sim, como naquela noite em que apanhaste uma cadela de tal ordem que não te recordavas dos últimos 6 anos da tua vida e que deixaste a tua mulher de tal forma f*dida da vida que ela fez do teu carro uma obra do Dali com o conjunto de facas de cozinha que lhe ofereceste pelos anos.

- Desodorizantes multiusos. No meu tempo, um desodorizante era isso. Mas agora? Nãooooo.....São desodorizantes, cicatrizantes, bactericidas, fungicidas e o diabo a sete. A questão que se coloca é...a que raio é que aquela m*rda cheira? Soda cáustica? E há lá coisa mais sexy que um homem a tresandar a soda cáustica... Ai, querido...esse aroma a canos desentupidos deixa-me louca de todo...

- Caldos multiusos. Caldos multiusos??? Sim, realmente na minha juventude conhecia um fulano que dizia que caldos de galinha da Knorr batiam forte e feio. Só se for esse tipo de multiusos.

- Decapante líquido multiusos. Cara leitora, está farta do seu marido? Tem uma sogra que quer mandar sorrateiramente para a quinta das tabuletas? Vai a um daqueles jantares de ex-colegas de turma mas preferia estar sossegada em casa a esvair-se em sangue? Pertence a uma seita que quer ir ter com os marcianos e o cianeto está caro? Temos a sua solução...

- Termómetros de penetração multiusos. Não sei porquê mas a partir do momento em que é um termómetro de penetração, deixa imediatamente de ser multiusos...

 

Caso estejam a pensar, não. Não fiz uma investigação extensiva durante meses a fio para escrever este post. Isto não é Sexta às 9, porra.

O racismo vive na porta ao lado

Dizem os sábios desta vida que todos os dias aprendemos algo novo. Seja o deleite de um novo livro folheado ou as consequências de meter os dedos na torradeira. Mas o que importa é que aprendemos. Bom ou mau.

Isto vale principalmente para as pessoas. Por vezes, julgamos que conhecemos as pessoas quando na realidade, não fazemos ideia de quem são.

Aproveitando o bom tempo que se fazia sentir, saí depois de almoço. Fui ao café onde encontrei a esposa de um amigo acompanhada da filhota. Adoro a miúda. Sete anos de pura irreverência, sentido de humor e caracóis louros selvagens. Sentei-me e colocámos a conversa em dia. A mãe ausentou-se por breves instantes para ir à casa de banho e fiquei na cavaqueira com a miúda.

 

- Então e diz-me lá, como anda a escola? - perguntei.

- Corre bem. Estou a tirar boas notas. - disse ela, com aquele sorriso juvenil que ilumina o mundo.

- Os teus pais devem estar felizes então... - disse eu a sorrir.

- Bem, o meu pai não ficou muito satisfeito com uma coisa...

- Então?

- Sabes, eu gosto muito de dançar. Mas o meu pai não me deixa ir para as aulas de hip hop.

- Porquê?

- Bem, ele diz que aquilo é música de pretos e que como ele não gosta deles, não me quer a dançar hip hop com as minhas amigas...

 

Caiu-me tudo. Não sei o que me fez sentir pior. Se descobrir que alguém por quem nutria estima se revelou um perfeito racista, se ouvir palavras desta índole da boca de uma criança. Entretanto, a mãe chegou e a menina afastou-se um pouco para brincar com outras crianças que ali estavam. E questionei-a.

 

- Olha lá, a miúda disse-me isto. É verdade?

Ela baixou a cabeça em perfeito silêncio, quase como envergonhada.

- Tu conheces-o. Sabes que ele não é má pessoa. É um excelente pai mas está longe de ser um perfeito ser humano...

- Ninguém é perfeito.Certo. Bom pai? A dar a entender à filha que é aceitável ser-se racista? Mas ele pensa que ainda vivemos de acordo com as Leis de Jim Crow? Proibir a miúda de frequentar aulas de hip hop? Segregação racial no sec. XXI?

Mais uma vez, silêncio.

 

Mãe e filha despediram-se de mim, deixando-me com os meus pensamentos. Temo por esta nova geração. Receio que os ódios antigos e convicções tacanhas falem mais alto e hipotequem alguma réstia de humanidade que nos reste. O racismo está mais presente que nunca nas nossas vidas. Basta proferir o nome de Donald Trump que me ocorrem dezenas de citações à mente. E as pessoas aplaudem. Bebem cada palavra como verdades absolutas. Sejam palavras carregadas de racismo ou xenofobismo. Ao que chegámos...

Da minha parte, não sei se conseguirei voltar a apertar a mão a esta pessoa. Não posso chamar amigo a alguém que se me visse junto de alguns familiares meus, talvez lhes cuspisse na cara. E quem cospe nos meus, cospe em mim.

Carta aberta

Hoje foi o Dia Internacional da Mulher.

Não que eu precise de um dia em particular para me recordar de ti, mas por coincidência (ou não, sabes que nunca fui grande adepto dessas coisas) estava por perto. É daquelas coisas que não se explicam. Quando dei por mim, havia feito 50km e estava à tua beira a conversar. E o que começou por ser dez minutos, rapidamente se tornaram trinta. Aquilo que sempre fora habitual em nós. Longas conversas em que criticavas a extensão do meu cabelo, o porquê de continuar a fumar passados estes anos todos e que a minha sorte era tu já não caminhares entre os vivos senão obrigavas-me a engolir toda a qualquer asneira que eu profiro. Uma a uma...

- Ela sempre foi uma parte importante de ti, não foi? - ouvi.

Era o coveiro. Não o havia visto chegar. Um homem de rosto carregado, duro, que fazia o seu trabalho em perfeito silêncio, como que em respeito pelo último lugar de repouso de tantas pessoas que ele provavelmente conheceu.

- Ainda é... - retorqui.

- Sabes, eu tive o prazer de a conhecer. Uma pequena grande mulher.

- Verdade. Um metro e cinquenta de pura grandiosidade feminina.

- Não deixa de ser curioso como por vezes, são aqueles que já partiram que fazem mais parte das nossas vidas do que aqueles com quem lidamos todos os dias. Irónico, não é? - perguntou.

- É...Irónico...

Despedi-me do senhor e deixei-o de roda dos seus afazeres. Saí do cemitério em passo curto, mais em paz comigo mesmo.

Hoje foi o Dia Internacional da Mulher. E decidi passá-lo contigo. Porque foste, sem margem para dúvidas, a mulher da minha vida. Criaste-me, viste-me crescer, errar e aprender. É um enorme orgulho afirmar que sou neto de quem sou. Sempre teu.

 

Uma caixinha catita que permite pesquisar as entranhas dos últimos anos de posts. Muito útil, principalmente porque nem eu já me lembro de metade do que escrevi...

 

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